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quinta-feira, 15 de abril de 2010

O MOSQUITO



When did you start your tricks,

Monsieur ?

What do you stand on such high legs for ?
Why this length of shredded shank,
You exaltation ?

Is it so that you shall lift your centre of gravity upwards
And weigh no more than air as you alight upon me,
Stand upon me weightless, you phantom ?

I heard a woman call you the Winged Victory
In sluggish Venice.
You turn your head towards your tail, and smile.

How can you put so much devilry
Into that translucent phantom shred
Of a frail corpus ?

Queer, with your thin wings and your streaming legs
How you sail like a heron, or a dull clot of air,
A nothingness.

Yet what an aura surrounds you ;
Your evil little aura, prowling, and casting a numbness on my mind.

That is your trick, your bit of filthy magic :
Invisibility, and the anæsthetic power
To deaden my attention in your direction.
But I know your game now, streaky sorcerer.

Queer, how you stalk and prowl the air
In circles and evasions, enveloping me,
Ghoul on wings
Winged Victory.

Settle, and stand on long thin shanks
Eyeing me sideways, and cunningly conscious that I am aware,
You speck.

I hate the way you lurch off sideways into air
Having read my thoughts against you.

Come then, let us play at unawares,
And see who wins in this sly game of bluff,
Man or mosquito.

You don’t know that I exist, and I don’t know that you exist.
Now then !

It is your trump,
It is your hateful little trump,
You pointed fiend,
Which shakes my sudden blood to hatred of you :
It is your small, high, hateful bugle in my ear.

Why do you do it ?
Surely it is bad policy.

They say you can’t help it.

If that is so, then I believe a little in Providence protecting the innocent.
But it sounds so amazingly like a slogan,
A yell of triumph as you snatch my scalp.

Blood, red blood
Super-magical
Forbidden liquor.

I behold you stand
For a second enspasmed in oblivion,
Obscenely estasied
Sucking live blood,
My blood.

Such silence, such suspended transport,
Such gorging,
Such obscenity of trespass.

You stagger
As well as you may.
Only your accursed hairy frailty,
Your own imponderable weightlessness
Saves you, wafts you away on the very draught my anger makes in its snatching.

Away with a pæan of derision,
You winged blood-drop.

Can I not overtake you ?
Are you one too many for me,
Winged Victory ?
Am I not mosquito enough to out-mosquito you?

Queer, what a big stain my sucked blood makes
Beside the infinitesimal faint smear of you !
Queer, what a dim dark smudge you have disappeared into !


* *


D.H. Lawrence

domingo, 21 de março de 2010

HOJE É DIA DE TAÇA CARLSBERG

Desejo-vos boas árvores e bons poemas.

sábado, 20 de março de 2010

VARIAÇÕES SOBRE UM CORPO



Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.



Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.



E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.



Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?


* *


Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

dEUS

Hoje contaram-me que Ruy Belo escrevia deus com letra pequena "para que nenhuma palavra levante a cabeça no meio da frase".

sábado, 30 de janeiro de 2010

TO HELENA

Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente.


* *


Ruy Belo

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

QUE NÃO SE MUDA JÁ COMO SOÍA


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


* *

Luís Vaz de Camões

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

PORTRAIT D'UNE FEMME


Your mind and you are our Sargasso Sea,
London has swept about you this score years
And bright ships left you this or that in fee:
Ideas, old gossip, oddments of all things,
Strange spars of knowledge and dimmed wares of price.
Great minds have sought you--lacking someone else.
You have been second always. Tragical?
No. You preferred it to the usual thing:
One dull man, dulling and uxorious,
One average mind--with one thought less, each year.
Oh, you are patient, I have seen you sit
Hours, where something might have floated up.
And now you pay one. Yes, you richly pay.
You are a person of some interest, one comes to you
And takes strange gain away:
Trophies fished up; some curious suggestion;
Fact that leads nowhere; and a tale for two,
Pregnant with mandrakes, or with something else
That might prove useful and yet never proves,
That never fits a corner or shows use,
Or finds its hour upon the loom of days:
The tarnished, gaudy, wonderful old work;
Idols and ambergris and rare inlays,
These are your riches, your great store; and yet
For all this sea-hoard of deciduous things,
Strange woods half sodden, and new brighter stuff:
In the slow float of differing light and deep,
No! there is nothing! In the whole and all,
Nothing that's quite your own.
Yet this is you.

* *

Ezra Pound

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

UMA TRISTEZA DE CREPÚSCULO...

"Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de abdicações - áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações confusas."

(Bernardo Soares, in Livro do Desassossego)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

LAPIDAR


"Poetry's unnat'ral; no man ever talked poetry 'cept a beadle on Boxin'-Day, or Warren's blackin', or Rowland's oil, or some of them low fellows; never you let yourself down to talk poetry, my boy."



Charles Dickens in Pickwick Pappers

CÂNTIGO NEGRO



O posderoso poema do grande poeta vilacondense na voz inconfundível de Villaret.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MANIAS!

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!


* *


Cesário Verde

sábado, 26 de dezembro de 2009

NOS SEMÁFOROS DA RUA DE SANTA CATARINA


ao menos os teus olhos
permanecem verdes
todo o ano


* *


Jorge de Sousa Braga

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

POP IS POETRY




Blur - Best Days (1994)

Door bells say goodbye to the last train\ Over the river they all go again \Out into leafy nowhere hope someone's waiting out there for them\ Cabbie has his mind on a fare to the sun

He works nights but it's not much fun\ Picks up the London yo-yos
All on their own down Soho\ Take me home

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

IN MY BEGINNING IS MY END



In my beginning is my end. In succession
Houses rise and fall, crumble, are extended,
Are removed, destroyed, restored, or in their place
Is an open field, or a factory, or a by-pass.
Old stone to new building, old timber to new fires,
Old fires to ashes, and ashes to the earth
Which is already flesh, fur and faeces,
Bone of man and beast, cornstalk and leaf.
Houses live and die: there is a time for building
And a time for living and for generation
And a time for the wind to break the loosened pane
And to shake the wainscot where the field-mouse trots
And to shake the tattered arras woven with a silent motto.

In my beginning is my end. Now the light falls
Across the open field, leaving the deep lane
Shuttered with branches, dark in the afternoon,
Where you lean against a bank while a van passes,
And the deep lane insists on the direction
Into the village, in the electric heat
Hypnotised. In a warm haze the sultry light
Is absorbed, not refracted, by grey stone.
The dahlias sleep in the empty silence.
Wait for the early owl.

In that open field
If you do not come too close, if you do not come too close,
On a summer midnight, you can hear the music
Of the weak pipe and the little drum
And see them dancing around the bonfire
The association of man and woman
In daunsinge, signifying matrimonie—
A dignified and commodiois sacrament.
Two and two, necessarye coniunction,
Holding eche other by the hand or the arm
Whiche betokeneth concorde. Round and round the fire
Leaping through the flames, or joined in circles,
Rustically solemn or in rustic laughter
Lifting heavy feet in clumsy shoes,
Earth feet, loam feet, lifted in country mirth
Mirth of those long since under earth
Nourishing the corn. Keeping time,
Keeping the rhythm in their dancing
As in their living in the living seasons
The time of the seasons and the constellations
The time of milking and the time of harvest
The time of the coupling of man and woman
And that of beasts. Feet rising and falling.
Eating and drinking. Dung and death.

Dawn points, and another day
Prepares for heat and silence. Out at sea the dawn wind
Wrinkles and slides. I am here
Or there, or elsewhere. In my beginning.



* *


T. S. Eliot


quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ABRO OS OLHOS


abro os olhos e desperto o dia. crio
a explosão do sol cheio sobre
mim. arranco-me à terra que
na noite me lançou raízes
e sacudo-me.
separo os braços, abro
o vento com as unhas. imagino
um voo firme. cumpro o
corpo e outras grandes
mentiras


* *

valter hugo mãe

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

PASSAMOS PELAS COISAS SEM AS VER





Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.



* *



Eugénio de Andrade

terça-feira, 8 de setembro de 2009

LISBOA



Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver


* *


Sophia de Mello Breyner Andresen


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

LIBERDADE




Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


* *



Fernando Pessoa

quinta-feira, 30 de julho de 2009

VERDE

Já que o Sporting nem ao Twente ganha, aqui fica algo verde que há-de vencer sempre:



VERDES SÃO OS CAMPOS


Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.


* *


Luís Vaz de Camões

terça-feira, 28 de julho de 2009

A FALA ENTRE PARÊNTESIS

Das florestas de Blake aos topos da Ásia
quem, da confusão entre chão e carne
com seu púbis, seu discurso e chamas,
QUEM DEFENDE TEU ROSTO DESTE SUDÁRIO INFERNAL?

Teu nome é Não em cio e som farpados
sinuoso grafito gravado no muro
mudo, contra o tempo
Arfa noturno, o olho do astro na memória

Este é o meu céu: numa bandeira turva
Incendeia seus últimos signos
Te insinua às sombras (que estão nos antros

e subsistem ao gráfico parêntesis:
Flechas ferindo-se no espelho. Reflexos
Dança indefinida


* *

Max Martins