quarta-feira, 9 de setembro de 2009

LARA



Sempre acreditei que David Lean filmou os olhos de Julie Christie como Boris Pasternak imaginou o olhar de Lara.
Talvez seja um crente por acreditar nestas coisas que não existem, talvez seja um idealista que gosta da ideia de um olhar escrito pelas mãos de um homem possa ser reproduzido fielmente através dos olhos de uma mulher que foram filmados por um outro homem.
Pior do que isso, acredito piamente que o olhar de Lara não pertence a Christie, que ele só existe na película de filme, e ela nunca mais voltou a olhar assim como podem comprovar pelos vossos próprios olhos.

Seja como for, a verdade é que o azul daqueles olhos viciou para sempre a imagem que tenho dos olhos de cada Lara que fui conhecendo ao longo da vida.

É como se em todas elas - não foram assim tantas - houvesse um pouco de Pasternak.

Ok. Nesta nem eu acredito...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

LISBOA



Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver


* *


Sophia de Mello Breyner Andresen


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

SE NUMA NOITE DE INVERNO


"Às vezes penso na matéria para o livro a escrever como coisa que já existe: pensamentos já pensados, diálogos já pronunciados, histórias já acontecidas, lugares e ambientes já vistos; o livro não devia ser senão o equivalente do mundo não escrito traduzido em escrita. Mas outras vezes julgo compreender que entre o livro a escrever e as coisas que já existem só pode haver uma espécie de complementaridade: o livro devia ser a parte escrita do mundo não escrito; a sua matéria devia ser o que não existe nem poderá existir senão quando for escrito, mas cujo vazio o que existe sente obscuramente na sua imperfeição."


Italo Calvino in Se Numa Noite de Inverno Um Viajante

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

I NEVER KISS AND TELL




Stone Temple Pilots - Bing Bang Baby (1996)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

LAPIDAR

"Não passamos de minhocas. Mas acredito ser uma minhoca que brilha."

Winston Churchill

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

IVANHOE


Ilustração de J. Cooper para uma das primeiras versões do clássico de Sir Walter Scott

OS NOSSOS DIAS


E na Holanda havia outra vaca...

LIBERDADE




Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


* *



Fernando Pessoa

sexta-feira, 31 de julho de 2009

PAPA'S GOT A BRAND NEW PIGBAG



Pigbag - Papa's got a brand new pigbag (1982)

ATTACK, ATTACK, ATTACK: GOAL!!



Sir Robert William Robson
(18 de Feveiro de 1933 - 31 de Julho de 2009)


Nos lugares comuns que "enxameiam" o futebolês em Portugal, há a ideia de dizer que tal pessoa é um gentleman. E se houve gentleman no futebol nacional foi Bobby Robson, que espalhou fair-play e tratou com elevação todos os adversários. Venceu quatro cancros, foi campeão e ganhou a Taça em Portugal pelo FC Porto e na Holanda pelo PSV, ganhou também a FA Cup, ganhou a Taça do Rei, a Taça UEFA com o Ipswich, a Taça das Taças com o Barcelona. Levou a Inglaterra pela 2ª e última vez até hoje a uma meia-final de um campeonato do mundo - para perder nos penaltis com a selecção alemã. No mundial anterior tinha perdido nos quartos de final às mãos de Maradona e do seu golo com a mão, que Robson nunca perdoou.
Treinou entre outros Romário, Figo, Ronaldo, Kostadinov, Balakov, Gascoigne, Lineker, Shearer, Baía, Beardsley, Shilton, Paulo Sousa, Chris Waddle... além de ter lançado José Mourinho como adjunto.
Na sua longa história, foi a demissão de treinador do Sporting (quando liderava o campeonato!) a mancha do seu currículo.
Nunca antes, nunca depois, Robson foi despedido de algum clube. O Sporting entrou na história pessoal deste campeão como o seu maior injusticeiro e ele nunca compreendeu o porquê dessa injustiça.
Curiosamente, os sportinguistas sempre adoraram Robson e sempre sentiram uma enorme mágoa em vê-lo partir. Foi talvez um dos maiores erros da história leonina.
Se o arrependimento matasse...
Mas o que mata é o cancro, e Robson não venceu este quinto combate. Se uma biografia conta que um homem venceu quatro cancros terminais, não precisamos dizer mais nada sobre a força, a coragem e a capacidade de vitória desse homem.
Robson foi um campeão, um champion na melhor tradição dos cavalaria britânica, que viu a Rainha Isabel II reconhece-lo com o título de Knight Bachelor em 2002 por serviços prestados ao Futebol e ao Reino Unido.
Polido, culto, inteligente. Um treinador que aprimorou o verbo atacar. Queria sempre que as suas equipas marcassem sempre mais um golo, era assim Bobby Five'O, ( alcunha que ganhou pelo estranho hábito que as suas equipas tinham de ganhar por 5-0 ) um homem que deixou um legado, um herói que deixa-me hoje genuinamente entristecido.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

VERDE

Já que o Sporting nem ao Twente ganha, aqui fica algo verde que há-de vencer sempre:



VERDES SÃO OS CAMPOS


Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.


* *


Luís Vaz de Camões

O IMPÉRIO DAS LUZES



L'Empire des Lumieres
René Magritte

PAPA-OOM-MOW-MOW



The Trashmen - Surfin' Bird (1963)

terça-feira, 28 de julho de 2009

A FALA ENTRE PARÊNTESIS

Das florestas de Blake aos topos da Ásia
quem, da confusão entre chão e carne
com seu púbis, seu discurso e chamas,
QUEM DEFENDE TEU ROSTO DESTE SUDÁRIO INFERNAL?

Teu nome é Não em cio e som farpados
sinuoso grafito gravado no muro
mudo, contra o tempo
Arfa noturno, o olho do astro na memória

Este é o meu céu: numa bandeira turva
Incendeia seus últimos signos
Te insinua às sombras (que estão nos antros

e subsistem ao gráfico parêntesis:
Flechas ferindo-se no espelho. Reflexos
Dança indefinida


* *

Max Martins

OS NOSSOS DIAS



Nada "silly", esta "season" madeirense.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

MÚSICAS QUE DEVIA TER VERGONHA DE UM DIA TER GOSTADO - PARTE II

O prometido é devido, aqui está a segunda parte das "Músicas que devia ter vergonha de um dia ter gostado".


Não consigo olhar pró gajo!

O álbum chamava-se "Wheels are Turnin", o ano era 1985, e aquele olhar esgazeado, aquela cabeleira farta que se mantêm em pé, miraculosamente, sem ajuda de laca, gel ou de qualquer tipo de armação metálica ou em betão, abriram caminho para a ascensão dos REO Speedwagon aos tops mundiais.
"Can't Fight this Feeling" é anos 80 até à medula (excepto alguns dos membros da banda que parecem saídos de um porno dos anos 70).
O vídeo é uma exploração ad nausea de efeitos de gosto dúbio, que não conseguem contudo apagar a fealdade dos membros da banda, e nem por sonhos, em momento algum, disfarçam o ar de "Psycho Killer choninhas" daquele vocalista.





Quero saber o que é o amor

Não é que a música não mereça ser ouvida do príncipio ao fim, mas aconselho vivamente a acelerarem o vídeo até ao minuto (1.24) em que a Musa inspiradora se baba de uma maneira descontrolada - na mais desastrosa tentativa de erotismo na história dos vídeos musicais.
O resto são os mesmos penteados, o típico sofrimento de vocalista de power ballad, imagens avulsas de Nova Iorque (um raro cosmopolitismo) e ainda um inovador toque étnico de um coro de Gospel. Um sucesso garantido!





O Enigma

Este senhor tinha tudo para ser one-hit wonder, mas a verdade é que também é responsável por esta outra pérola (Não se assustem com a respiração!).
The Riddle é um enigma em si, que mistura belos penteados (não me canso de o referir e não venham cá com história que é inveja por causa da minha calvice)com uma estética sem sentido, que mistura arcaísmos com futurismos datados, tambores e flautas com rato mickey e um Enigma que os produtores de Batman deviam por certo processar.





A chama eterna

Aí está uma músiquinha toda lamechas. Mas em abono da minha pessoa devo dizer que as miúdas eram giras.




O irmão Luís

Quando se fala dos anos 80 os Modern Talking vêm sempre à liça, e Brother Louie é um dos singles mais injustamente esquecido do duo Thomas Anders/Diete Bohlen.
Desta vez não vou destacar maravilhas capilares, prefiro falar do Óscar, ou da multidão entusiasta que vibra com a actuação dos senhores.
Convém notar também que este duo tentava contrastar sempre. Se um era loiro, o outro era moreno. Se um vestia de forma informal com jeans e sapatilhas o outro vinha de fatinho reluzente. Se um apertava a camisa até ao pescoço o outro não apertava sequer um botão. Se um tocava guitarra e orgão o outro nem pandeireta tocava.
And it can go on and on...



to be continued...

terça-feira, 30 de junho de 2009

HENRY LEE



Nick Cave & PJ Harvey - Henry Lee

terça-feira, 23 de junho de 2009

LA TERRE EST BLEUE





La terre est bleue comme une orange
Jamais une erreur les mots ne mentent pas
Ils ne vous donnent plus à chanter
Au tour des baisers de s'entendre
Les fous et les amours
Elle sa bouche d'alliance
Tous les secrets tous les sourires
Et quels vêtements d'indulgence
À la croire toute nue.
Les guêpes fleurissent vert
L'aube se passe autour du cou
Un collier de fenêtres
Des ailes couvrent les feuilles
Tu as toutes les joies solaires
Tout le soleil sur la terre
Sur les chemins de ta beauté.


* *


Paul Éluard


sexta-feira, 19 de junho de 2009

ESPELHO


Vista do Reservátorio Jaqueline Kennedy Onassis no Central Park, Nova Iorque
Junho 2009

RETURN

Foram férias, foram passeios, foram variadas preguiças.

Acabou-se a viagem e o desmame da mesma, volto a viajar no blogue.

domingo, 24 de maio de 2009

DESMAYARSE, ATREVERSE


Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar fuera del bien centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho ofendido receloso;

huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor suave,
olvidar el provecho, amar el daño;

creer que el cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño,
esto es amor: quien lo probó lo sabe.


* *


Lope de Vega

quinta-feira, 21 de maio de 2009

STOP ALL THE CLOCKS



Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.



* *


W.H. Auden

sexta-feira, 15 de maio de 2009

LET DOWN



Radiohead - Let Down (1997)

RIO HOMEM



Rio Homem, Gerês, Maio 2007

MÚSICAS QUE DEVIA TER VERGONHA DE UM DIA TER GOSTADO

Todos nós cometemos erros que mais cedo ou mais tarde, durante o decorrer da vida nos arrependemos. Tanto podem ser penteados desastrosos, como camisolas aos losangos ou aquele triste dia em que festejamos um golo do Benfica. São coisas que acontecem e não temos que nos envergonhar disso.


Ai Ai Ai Ai Ai Ai


Em 1984 as ondas do éter foram inundadas por um "ai ai ai ai" (Que deixou marcas em Portugal) que pôs meio mundo a ganir lamechamente o refrão do sucesso planetário de Jim Diamond "I Should Have Known Better".
Eu não era excepção, além de gostar dos 3 Duques e de assistir com frequência aos programas de Luís Pereira de Sousa, também cantarolava aquele ai ai ai ai ai ai ae pleno pulmões, sentia a dor do rapaz, pois estava convicto que quem tanto gania assim, só podia estar muito magoado, e como tal merecia toda a minha solidariedade...




Agora é que nada nos pára!


Se andasse metido nas drogas, ou a abusar fortemente de Caprissone de Maçã de prazo ultrapassado e provavelmente fermentado, ainda teria uma desculpa para gostar disto... mas lamentavelmente não tenho nenhuma desculpa.





O Amor muda tudo. Não duvides disso!


Um vídeo a preto e branco dava um toque de classe bastante incomum nos coloridos anos 80. Uma morena com umas curvas bem interessantes também devia ajudar. Um cantor com um penteado catita, e que cantava encostado a uma parede com um ar cool, enquanto torcia uma espécie de toalha e dançava com a sua camisola caviada e ainda mostrava os músculos. Um cenário que fazia lembrar uma cidade abandonada do Wild Wild West. Um coro feminino que surgia amiúde a cantar e a dançar. O próprio nome Climie Fisher, parecem ser tudo boas razões para se gostar da música em idos de 88.
Mas eu gostava mesmo era da música...




A evolução nacional


Há quem não goste de dar o braço a torcer e não reconheça que Portugal evoluiu e não foi pouco nos últimos 25 anos.
Percam 3:49 da vossa vida (mas vão perder mesmo, ficam já avisados) e confirmem com os vossos próprios olhos, que entre a Nelly Furtado que Portugal produzia nos 80's e a Promiscuous Girl dos nossos dias, vai todo um mundo de diferença...








Morreu nos braços dela. Ninguém lhe manda pensar com as mãos em vez da cabeça.


"Oh I, I just died in your arms tonight, it must have been something you said" Esta letra sempre se me apresentou como um enigma. O que terá ela dito? Terá sido grave, porque o rapaz não pára de cantar "I should have walked away".
Toda a letra, é um mar de pistas que fariam as delicias do inspector Varatojo ou mesmo do próprio Hercule Poirot.
Certo e sabido, é que o próprio afirma peremptoriamente que: " I follow my hands, not my head, I knew I was wrong."
E quando é o próprio que o diz, não são precisas mais explicações.

Quanto à música? Olha... é mais uma para lista.




Eu preciso te falar (como é que vou explicar isto?)


Last but not least, apresento a música mais azeiteira que alguma vez gostei. Não há nenhuma explicação racional ou lógica para gostar disto. Pior do que isso, não há se quer irracionalidade que o justificasse...





To be continued...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

DE PROFUNDIS


Durante estes dias de ausência voltei a ler o De Profundis de Oscar Wilde. Tal e qual como quando o li pela primeira vez algures entre 1999 e 2000 continua a tocar-me com a sua tristeza e melancolia.
Dez anos depois continuo a acha-lo profundamente triste na forma como Wilde demonstra a descrença que naquele momento sentia pelo mundo e a sociedade que o rodeava.
É contudo uma tristeza serena, sem sombra de contestação. Há como que uma aceitação de um desingnio que emana das palavras do autor.

mas apesar de toda esta melaconlia e tristeza, o De Profundis não deixa de ser um manifesto onde Wilde em momento algum hesita em demonstrar o amor que tem pela vida e por aqueles que tanto ama ou amou, inclusive fazendo questão de lembrar que a felicidade existe, que ele já a viveu, e que pode ainda voltar a vive-la.

No De Profundis não há a maravilhosa literatura de Wilde dos contos e das peças, não há mais do que alguns lampejos do brilhante escritor que aqui se despe de toda a sua pomposidade para assumir uma sinceridade comovente, que transforma esta carta de amor no escrito mais intimo que se conhece do autor irlandês.

É nesta carta cheia de saudade, de arrependimento, de culpa, onde o autor não tenta esconder a sua fraqueza e o seu sofrimento, que Wilde deixa o seu charme literário de lado - mas não a sua intelectualidade e cultura literária- e limpa o seu discurso de qualquer máscara.

É uma carta de amor, e se bem que Pessoa nos tenha alertado sobre o tema, aqui Wilde não quer encantar, não quer ser alvo de pena, por certo não esperava que tantos algum dia lessem, e acima de tudo, em momento algum, escreve de forma ridícula.

É uma carta de amor, repito. Um desabafo sincero (maravilhoso!), onde um homem genial confessa de que mais do que estar cansado do mundo, está irremediavelmente cansado de esperar que o mundo possa ser o que ele gostaria que fosse.

"Suffering is one very long moment. We cannot divide it by seasons. We can only record its moods, and chronicle their return. With us time itself does not progress. It revolves. It seems to circle round one centre of pain. The paralysing immobility of a life every circumstance of which is regulated after an unchangeable pattern, so that we eat and drink and lie down and pray, or kneel at least for prayer, according to the inflexible laws of an iron formula: this immobile quality, that makes each dreadful day in the very minutest detail like its brother, seems to communicate itself to those external forces the very essence of whose existence is ceaseless change. Of seed-time or harvest, of the reapers bending over the corn, or the grape gatherers threading through the vines, of the grass in the orchard made white with broken blossoms or strewn with fallen fruit: of these we know nothing and can know nothing.
"


Oscar Wilde in "De Profundis"

A RUSH AND A PUSH AND THE LAND IS OURS



The Smiths - A Rush and a Push and the land is ours (1987)

Underrated é o adjectivo perfeito na língua inglesa para definir esta perola dos The Smith.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

OS NOSSOS DIAS



Estes são os dias do Barcelona, da magia em Madrid, da pior arbitragem da história da Liga dos Campeões dias depois. Estes são os dias em que o mundo se apaixona por uma equipa ao ponto de lhe perdoar vitórias só possíveis pela benevolência do apito.

Imagino o que diria o mundo se o Barcelona fosse eliminado e tivessem ficado por assinalar 4 grandes penalidades a seu favor...

Foi justiça divina? Foi justiça cósmica? Foi Futebol?

Visca el Barça, e o Senhor Abramovich que meta as mesmas rolhas que serviram aos de Madrid.

terça-feira, 5 de maio de 2009

WE ARE THE PEOPLE



Empire Of The Sun - We are the people (2009)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

SÊ PACIENTE

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.



* *


Eugénio de Andrade

domingo, 3 de maio de 2009

MÃES



No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e se possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

* *

Herberto Helder

sexta-feira, 1 de maio de 2009

PROFOUNDLY INLOVE WITH PANDORA...

Como é que com esta tresloucada mania de reviver e recuperar tudo o que havia nos anos 80, se esquecem deste senhor?
Haja decoro! Vão buscar cada resto de digestão mal processada como se fosse o Santo Graal e depois nem se lembram da existência deste diário secreto?
Oh My, Oh My...



The secret diary of Adrian Mole

quinta-feira, 30 de abril de 2009

LE PETIT PRINCE


Disclaimer: Quem gostou de ler "O Principezinho" por favor não passe deste parágrafo.

O aviso está feito, obrigado.



Quando era miúdo li o Principezinho e além de não ter compreendido muito bem o alcance da história, achei que era um livro assim meio chato, desinteressante, se bem que nesses tempos por certo não adjectivasse as coisas desta forma.

Os anos passaram e à minha volta acumulavam-se os elogios à obra de Saint-Exupéry, o que eu não compreendia muito bem, mas que ia relevando, tendo em conta que tinha lido o livro em tenra idade e que na altura nem sequer o tinha entendido lá muito bem.

Em 2007, por motivos profissionais passei a lidar diariamente com literatura infantil, e a história do pequeno príncipe revelou-se para minha surpresa ser um verdadeiro best-seller imune a qualquer crise ou a passagem do tempo.

Intrigado com tanta alusão ao livro, além de tantos exemplos de manifesta devoção pelo seu conteúdo que diariamente ia conhecendo, resolvi ir reler a obra, convencido que estava, que o meu desinteresse pela Majestade da literatura infantil se devia a um misto de má-vontade com um desconhecimento que só se pode condenar em alguém que se acha versado em termos literários.

...

Li o livro e só me apetecia bater com ele na cabeça. Como é que voltei a perder tempo com aquela chachada?

Os primeiros instintos por norma estão certos. Um dia hei-de teorizar aqui sobre essa matéria, defendendo que a alta percentagem de decisões correctas que se tomam por instinto é talvez uma das mais importantes armas que a evolução legou não só a nossa como as outras espécies.

Aos 8/9 anos equipado que estava com esse instinto certeiro, era óbvio que já tinha o discernimento necessário para saber que o principezito comparado com outros livros que já lera até então era uma valente seca, como além do mais, já tinha solidificado suficientemente o bom gosto para poder considerar a história do principezinho como sendo absurda e profundamente idiota, não obstante ainda me deliciar com desenhos animados de gosto duvidoso como a Candy Candy.

Hoje, passados todos estes anos, e uma segunda leitura, não tenho muito mais a acrescentar.
Apenas gostaria de apresentar um pedido desculpa ao Charles Darwin por ter tentado contrariar o meu instinto primário, e um enorme, gigantesco pedido de desculpas ao Pedro que tinha 8/9 por não ter levado a sério o que ele tinha dito, e por ter posto em causa o seu discernimento.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

INJUSTIÇAS DIVINAS




Casos de gripe suína detectados em Israel dão que pensar sobre o sentido de humor daquele Senhor de quem é suposto nunca se pronunciar o nome.

EXPULSÃO DOS DEMÓNIOS


detalhe da Expulsão dos demónios de Arezzo (1295-1300)
Giotto

fresco na Igreja de São Franciso, Assis, Itália

FÉERICA



Santorini
Agosto 2008

CREPUSCULAR



Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
--- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
--- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.


* *



Camilo Pessanha


ZOOROPA



Esta foi a música que deu nome ao último albúm dos u2: Zooropa.

Há quem diga que eles continuaram e gravaram mais coisas, mas não acreditem nisso.
Obviamente que foram raptados por extra-terrestres e prontamente substituídos por uns look-alikes que vacilam indecisos entre fazer rockalhadas à Offspring ou melodias a la Ronan Kittin...

terça-feira, 28 de abril de 2009

É A GRIPE, ESTÚPIDO!

Até ao momento em que escrevo este post já faleceram em todo o mundo desde o aparecimento da pandemia 107 pessoas com a so called gripe suína (outros chamam de mexicana).

O mundo entrou em alvoroço, havendo já quem faça comparações com a gripe espanhola de 1918...

Entretanto a Organização Mundial de Saúde informou recentemente que DIARIAMENTE morrem por todo o mundo cerca de 5500 CRIANÇAS com diarreia.

Mas tal facto não é alarmista e pelos vistos também não é catastrofista. Não chama a atenção de ninguém.
Provavelmente porque sempre foi assim, e porque sempre assim será...

SPREE



Berlim, Agosto 2007

HERÓIS DESENHADOS




Roger Ramjet and his Eagles, fighting for our freedom.
Fly through and in outer space, not to join him but to beat him.

UNCERTAIN SMILE



The The - Uncertain Smile (1983)

OS NOSSOS DIAS

SALOMÉ


Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro! A minha´alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...


* *


Mário de Sá-Carneiro

A VITÓRIA DE ALEXANDRE

A Batalha de Isso (1529)
Albrecht Altdorfer

segunda-feira, 27 de abril de 2009

LAPIDAR

"O mundo é regido por personagens muito diferentes do que é imaginado por aqueles que não estão nos bastidores."


Benjamin Disraeli

HERÓIS DESENHADOS



This is 29 Acacier Road. And this is Eric - the schoolboy who leads an exciting ...

SEMÂNTICA ELECTRÓNICA



Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!


* *


Vitorino Nemésio


domingo, 26 de abril de 2009

TROVA DO VENTO QUE PASSA



Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

sexta-feira, 24 de abril de 2009

HOJE ACORDEI ASSIM




Carlos Gardel - Por una cabeza (1927)

UN PERRO IBERICO, POR SUPUESTO...

Há muitos anos ouvi contar uma história, que nunca pude confirmar se era verdade ou não, sobre a maneira como os espanhóis lidam com os sucessos e os insucessos de Portugal:

Conta a história, que em 1987 quando o FC Porto foi Campeão Europeu, os jornais espanhóis apresentavam parangonas que louvavam a vitória ibérica, mas passado um ano a derrota do Benfica na final da mesmíssima competição já foi considerada uma derrota portuguesa.

Sempre brinquei com esta história, sem saber bem se era verdade ou era mentira, esta história dos espanhóis serem uma cambada de invejosos que se tentavam colar aos nossos tão raros feitos.

Mas na semana passada - quando eu andava meio parvo com a alegria idiota que os portugueses sentiam por haver um cão americano, nascido nos states, criado e doado por uma familia americana a uma outra familia americana - surgiu esta bela notícia que veio comprovar que afinal a inveja espanhola além de não ser um mito, é ainda bem mais grave (e já agora idiota) do que eu pensava...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

QUEEN VICTORIA HANDICAP



Monty Python

A HISTÓRIA QUE CONTAM AS FOTOS


A história é uma fotografia a preto e branco de um soldado, que retira da parede o quadro de um ditador, que mesmo depois de morto ainda representava o regime.

AS PESSOAS SENSÍVEIS

Por estes dias não vai faltar blogue que relembre o belo poema que Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu sobre o 25 de Abril.

Como tenho a mania de ser diferente, e como não gosto de ir com a corrente do rio, deixo aqui outro belo poema da poetisa que escrevia poemas transparentes como as águas do mar.





As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas


O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."


Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.


* *


quarta-feira, 22 de abril de 2009

CELLO SONG



The Books and José González - Cello Song (2009)

SOMA DESCARTES COM RIMBAUD E DIVIDE POR TI

1. Eu sou, logo existo.

2. Eu sou um outro.

3. Eu continuo a ser mesmo quando não existo.

4. Logo eu sou mesmo que não o seja.

terça-feira, 21 de abril de 2009

1,95€?



"De Battre mon Coeur s'est Arrêté - De Tanto Bater o meu Coração Parou " de Jacques Audiard

Sábado sai com o público por apenas mais 1,95€.
Depois, não digam que eu não vos avisei.

PARAÍSO

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


* *


David Mourão Ferreira


MISS MISERY



Elliot Smith - Miss Misery

segunda-feira, 20 de abril de 2009

EVA


Eva e a Maçã (1578)
Giuseppe Arcimboldo

sexta-feira, 17 de abril de 2009

MANIFESTO CONTRA O GOVERNO?

Este governo é tão mau, mas tão mau, que até a música que supostamente foi transformada pelo país em manifesto contra Sócrates é uma valente merda (ups! está dito!)

Uma músiquinha de trazer por casa, com as guitarras preguiçosas do costume. Uma voz de rebarbado bem pior que a minha porcaria de voz, e uma letra, que é um poema do mais básico que já ouvi em muito tempo.
Basta pegar em cinco crianças de 9 anos, e fazer um rápido brainstorming de 15 minutos, e prometo que se consegue arrancar-lhes uma letra bem mais acutilante para a governação de Sócrates, e sem a necessidade de usar a palavra "merda" (ups! disse outra vez) do que esta (ah queriam!!!) bosta de música que os xutos nos apresentaram.

RAIN, STEAM AND SPEED


Rain, Steam and Speed - The Great Western Railway (1844)
William Turner

SAD PROFESSOR




Dear readers, my apologies.
I'm drifting in and out of sleep.
Long silence presents the tragedies
Of love. Not the age. Get afraid.
The surface hazy with attendant thoughts.
A lazy eye metaphor on the rock.

Sempre considerei o Michael Stipe um poeta que escreve como os grandes, e que ainda para mais, como se isso não bastasse, canta como os melhores.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

OCASO BÁLTICO



Pôr-do-sol no Báltico meio-caminho entre Rostock e Gedser, Agosto de 2007

quarta-feira, 15 de abril de 2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

MÚSICA AQUÁTICA



250 anos depois do dia da sua morte, volto a apresentar Handel, desta vez com a sua gloriosa Water Music.

LARANJAS

Depois de lançar talvez o cartaz mais medonho de história, adiou continuamente o anúncio do seu cabeça de lista às europeias, criando uma expectativa crescente na opinião pública relativamente a quem seria o eleito de MFL para a "luta" com Vital Moreira.
E quem foi a escolha dos sociais-democratas? Nada menos (0 mais para aqui não é chamado) que o seu apagadíssimo líder parlamentar.

O PSD entra derrotado nas eleições e reforça essa ideia com uma escolha tudo menos carismática.

Rangel é um brilhante professor, um ilustre homem do direito, um homem sapiente, culto e inteligente. Tem contudo uma profunda inabilidade política. Rangel parece precisar sempre de se colocar em bicos de pé para ser ouvido melhor no nosso parlamento. Passa a imagem que se esqueceu sempre da página onde estavam os dados que podiam refutar determinada ideia.

Acima de tudo Rangel é aos olhos dos portugueses um perfeito desconhecido, mais um de Lisboa (sendo ele portuense) que quer ir mamar para Bruxelas, como comentava hoje alguém na mesa ao lado do café.

Isto diz tudo sobre a escolha do PSD.

O AMOR E A MORTE (CANÇÃO CRUEL)




Corpo de ânsia.
Eu sonhei que te prostrava,
e te enleava
aos meus músculos!

Olhos de êxtase,
eu sonhei que em vós bebia
melancolia
de há séculos!

Boca sôfrega,
rosa brava
eu sonhei que te esfolhava
pétala a pétala!

Seios rígidos,
eu sonhei que vos mordia
até que sentia
vômitos!

Ventre de mármore,
eu sonhei que te sugava,
e esgotava
como a um cálice!

Pernas de estátua,
eu sonhei que vos abria,
na fantasia,
como pórticos!

Corpo de ânsia,
flor de volúpias sem lei!
Não te apagues, sonho! Mata-me
como eu sonhei.



* *


José Régio


segunda-feira, 13 de abril de 2009

PUSSYFOOTING



Fujiya & Miyagi - Pussyfooting (2008)

ABRIL



April is the cruellest month, breeding

Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.



Foi assim que T.S. Eliot descreveu Abril no seu majestoso "The Waste Land". É com este verso que começa um dos poemas maiores da língua inglesa, obra-prima do século XX, criada por esse poeta que nasceu americano para vir a morrer inglês.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

MARIA FLOR



Maria Flor, 2008 (Brasil)

VIAGEM PELA MINHA ESTANTE - TAKE FOUR



Continua a viagem por mais uma aparente zona de poesia. Pouco tenho a destacar além de um maço de poesia maldita e de um relógio sem pilha que se encontram na vizinhança duma ou doutra antologia, e na companhia de mais alguns dos nomes maiores da minha estante: Camões, Auden, Neruda, Herberto, Sá-Carneiro, Pessoa...

HUMOR DOS ANTÍPODAS



Flight of the Conchords

quinta-feira, 9 de abril de 2009

LAPIDAR

"A moral é a debilidade do cérebro."


Jean-Arthur Rimbaud

GEORGE WASHINGTON TAMBÉM TINHA UM PRIMEIRO CÂO


Não era só um (eram onze), não vivia na Casa Branca (não existia), mas Sweetlips que vemos aqui com o primeiro Presidente americano (George Washington) foi para todos efeitos o antecessor do cão d'água português de Obama - que enche de orgulho este triste mas contudo hilariante país onde vivemos - no papel de Primeiro Cão dos Estados Unidos da América.

MAD GIRL'S LOVE SONG




I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)

The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)

God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)

God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.

I fancied you'd return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)

I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head.)


* *

Sylvia Plath

VEM SENTAR-TE COMIGO LÍDIA, À BEIRA DO RIO




Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.


* *


Ricardo Reis


A MINHA VIA SACRA PREFERIDA


Cristo carregando a cruz

Hieronymus Bosch


Será por este quadro que um dia hei-de ir a Gant.

OS NOSSOS DIAS




Talvez uma pascoa investigue esta improvável ligação que existe entre as amêndoas e a crucificação de um homem. Mas este ano, vou limitar-me só a come-las.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

AGIA PELAGIA


Agia Pelagia, Grécia
Agosto 2008

LUSITANICES

Que fique lavrado em bom português e que não haja a menor dúvida acerca deste post, onde eu um indefectível sportinguista, confesso que não é a primeira vez, que o Futebol Clube do Porto faz-me ter orgulho de tal como ele, ser português.

LIKE SPINNING PLATES



Radiohead - Like Spinning Plates ('I Might Be Wrong' version) - 2002

ONE MAN BAND



One Man Band, 2005 (EUA)

terça-feira, 7 de abril de 2009

MISTERI / MISTERO



1.

I àusi zirà in alt i vuj
su li pichis secis dai lens,
no jot il Signòur, ma il so lun
ch'al brila sempri imèns.


Di tantis robis ch'i sai
i 'n sint tal còur doma una,
i soj zòvin, vif, 'bandunàt,
cu'l cuàrp ch'al si consuma.


I stai un momènt ta l'erba
dal rivàl, tra i lens nus,
po' i camini, e i vai sot il nul,
e i vif cu la me zoventùt.


*

2.

Oso alzare gli occhi
sulle cime secche degli alberi
non vedo il Signore, ma il suo lume
che brilla sempre immenso.

Di tutte le cose che so
ne sento nel cuore solo una:
sono giovane, vivo, abbandonato,
col corpo che si consuma.

Resto un momento sull'erba
della riva, tra gli alberi nudi,
poi cammino, e vado sotto le nuvole,
e vivo con la mia gioventù.



* *


Pier Paolo Pasolini



O mesmo poema pode ser lido aqui na versão em friuliano (1) que é o dialecto da região de Friuli no norte de Itália em que Pasolini o escreveu originalmente e em italiano (2) língua em que poeta escreveu a maior parte da sua poesia e prosa.

ARTE POÉTICA



Mirar el río hecho de tiempo y agua

y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.


* *


Jorge Luis Borges

MOISÉS E LUTERO

Moisés parece olhar Lutero no exterior da Catedral de Copenhaga, Julho de 2007.

ADAGIETTO



Adagietto da Sinfonia nº 5 de Gustav Mahler
Herbert von Karajan - Orquestra filarmónica de Berlim